Há um preconceito muito grande com o termo autoajuda. Vejo muitas pessoas detonarem livros que são rotulados como sendo de autoajuda, como se fosse uma categoria menor, quase um gênero menor dentro da literatura. E isso sempre me chamou a atenção, porque, na verdade, poucas pessoas que criticam esses livros de fato os leram ou tentaram extrair algo deles. Muitas vezes, o julgamento vem antes da experiência, e aí já perdemos a chance de aprender alguma coisa. Vamos ao que penso sobre isso, com calma e com a honestidade de quem já leu bastante e já se beneficiou muito dessa tal de autoajuda.
Em todas as áreas encontramos aquilo que consideramos raso ou profundo. Mas isso depende dos diferentes níveis de compreensão em que cada pessoa se encontra. O que é raso para mim pode não ser para o outro. Cada indivíduo tem afinidade com determinada área e/ou assunto, portanto vai buscar a informação de que precisa naquilo que gosta. E está tudo bem. Não há vergonha nenhuma em começar por um livro simples, com linguagem acessível, que fale direto ao coração. Às vezes, é exatamente isso que a pessoa precisa naquele momento: algo claro, objetivo e que não exija um doutorado em psicologia para ser entendido. A profundidade não é uma qualidade fixa do livro; é uma relação entre o livro e o leitor. Um mesmo texto pode ser superficial para um e transformador para outro, dependendo do momento de vida, das dores que estão em jogo e das perguntas que estão sendo feitas. Então, por que desprezar algo que pode ser exatamente o que alguém precisa ouvir?

O termo autoajuda ganhou uma carga negativa principalmente no meio literário a partir de alguns títulos de livros. Estes passam a mensagem de que, se você seguir aquela cartilha, vai conseguir resolver seus problemas. E, convenhamos, essa promessa realmente é exagerada. Nenhum livro, por melhor que seja, vai resolver a vida de ninguém sozinho. Mas será que o problema é o livro ou a expectativa que criamos em cima dele? Muitas vezes, a crítica não é ao conteúdo em si, mas ao marketing que o envolve, às capas chamativas, aos títulos que prometem felicidade em dez passos. Eu entendo essa desconfiança. Porém, jogar tudo no mesmo balaio, chamando qualquer obra de autoajuda de descartável, é um erro. É como dizer que toda música popular é ruim só porque algumas são comerciais demais. Não faz sentido, não é mesmo?
Cada obra tem seu mérito. Provavelmente, o autor vivenciou aquele processo e por isso escreve com desenvoltura e acredita que, seguindo aqueles passos, método, lista, esquema, os outros também vão tirar o mesmo proveito que ele tirou. Ok, é válida a intenção. Pode não ser aplicável para todos, mas isso não significa que o conteúdo seja totalmente inapropriado. Na verdade, muitos desses autores estão compartilhando suas próprias cicatrizes, seus próprios erros e acertos. Eles não estão ali para enganar ninguém; estão ali para contar o que funcionou para eles. E, se funcionou para um, pode funcionar para outro. Pode não funcionar para todos, e isso é perfeitamente aceitável. A vida humana é diversa demais para caber em um único manual. Mas isso não invalida a experiência de quem escreveu nem a de quem se beneficiou. Cada leitor vai pegar aquilo que faz sentido na sua própria história e deixar o resto de lado. E isso já é um ganho imenso.
Mas então, você pergunta: autoajuda funciona? Eu digo: sim! Explicando…
Aprendi e aprendo muito com esses livros categorizados como autoajuda. Todos os que li (uns mais, outros menos) me trouxeram luz sobre determinado tema. Não foram curas milagrosas, nunca foram. Mas foram estímulos, foram empurrõezinhos, foram novas formas de olhar para velhos problemas. E isso tem um valor enorme. Eu me lembro de livros que li em momentos difíceis da minha vida, em que me sentia perdida, sem rumo, e aquelas páginas me fizeram enxergar uma saída que eu não via antes. O livro não tinha uma fórmula mágica, mas ele me fez pensar, me fez questionar minhas próprias crenças, me fez perceber que eu tinha mais poder sobre minha vida do que imaginava. E isso, para mim, é o verdadeiro sentido da autoajuda: não é alguém te ajudando, mas você se ajudando a partir de um estímulo externo.
Mas como isso funciona?
Se você está passando por uma situação difícil e quer entender e mudar o rumo das coisas, então vai buscar algo que possa ajudar: pode ser um livro, curso, palestra, vídeo, conversa com alguém, etc. O que é isso? É um movimento que você faz com o intuito de buscar resposta para determinada situação. Se é você quem faz o movimento, então o que está fazendo? Se autoajudando! Você escolhe o rumo, as ferramentas que vai usar, mesmo que tenha sido através de uma sugestão. Isso é autoajuda! Não é passividade, não é esperar que alguém venha te salvar. É exatamente o contrário: é assumir a responsabilidade pela própria vida, é tomar a iniciativa de procurar algo que possa te trazer clareza. E isso, convenhamos, é um ato de coragem. Muita gente prefere ficar reclamando da situação do que buscar ativamente uma mudança. Quem busca um livro de autoajuda já está dando um passo à frente, já está se movendo. E esse movimento, por si só, já é terapêutico.

No caso dos livros, mesmo que tenham um título como “Dez formas para ser feliz”, eles podem ajudar você a perceber que pode fazer algo diferente na sua vida. Uma vez que você põe em prática, está fazendo o movimento, está saindo de um ponto para outro. Não importa se você vai seguir todos os passos ou apenas um deles. O importante é que você começa a agir. E agir é o que transforma. Ler é importante, mas só ler não adianta. O que muda a vida é a aplicação, é o teste, é a experiência. É você pegando aquela ideia que leu e trazendo para o seu dia a dia, vendo como ela se encaixa, adaptando, ajustando. E aí, mesmo que o livro seja simples, mesmo que seja escrito de forma direta, ele cumpriu o papel dele: te tirou da inércia. E isso é mais do que muitos livros considerados “profundos” conseguem fazer.
Autoajuda é quando você tem respostas positivas como resultado da sua busca. É quando você vivencia algo diferente a partir do que aplicou. É o que funciona, pois ninguém pode fazer o movimento por você. Se você ler um livro com a mente aberta, sua percepção sobre alguns pontos irá mudar; você vai aprender algo novo e compreender aquele assunto sob uma perspectiva que não havia considerado antes. E essa nova perspectiva pode ser a chave que estava faltando para você resolver aquela questão que te incomodava há tanto tempo. Não é garantia, claro. Nem sempre funciona. Mas, quando funciona, o impacto é real, é palpável, é sentido na pele. E isso não pode ser desprezado só porque o livro tem uma capa bonita ou um título chamativo.
Agora, também preciso deixar algo claro: autoajuda não substitui acompanhamento profissional. Não estou dizendo que ler um livro resolve tudo. Em muitos casos, é necessário e fundamental buscar terapia, acompanhamento psicológico, psiquiátrico, grupos de apoio, entre outros. O livro pode ser um complemento, um aliado, mas não um substituto. Cada ferramenta tem seu lugar e sua função. A questão não é competição, é soma. O que defendo é que a gente pare de olhar com desprezo para uma ferramenta que, sim, pode ser útil, dependendo do contexto e da pessoa. Não é sobre defender a autoajuda cegamente, mas sobre não descartá-la sem critério, sem conhecimento de causa.
Portanto, antes de sair por aí afirmando que tal livro é autoajuda, que tal se inteirar do conteúdo, aplicar, tentar compreender o ponto de vista do autor? Que tal dar uma chance real, honesta, sem o peso do preconceito? Você pode se surpreender. Pode ser que você encontre ali exatamente a palavra que precisava ouvir. Pode ser que você descubra que aquele autor, que você julgava superficial, tem uma história de vida que vale a pena ser conhecida. Pode ser que você, no fundo, também esteja buscando respostas e se recuse a admitir por puro orgulho. E tudo bem. Não há problema em buscar ajuda, seja ela de onde for. Nada disso elimina a possível necessidade de outras formas de se ajudar: terapia, grupos de estudo, cursos, e outras maneiras de adquirir um saber e, principalmente, vivenciá-lo. O importante é que você esteja em movimento, que esteja aberto a aprender, que esteja disposto a olhar para si mesmo com honestidade.
Eu, particularmente, já me beneficiei muito dessa categoria de livros. Já chorei lendo alguns, já me emocionei, já coloquei em prática ensinamentos que mudaram minha rotina, meus relacionamentos, minha forma de encarar desafios. E não tenho vergonha nenhuma disso. Pelo contrário, tenho gratidão. Gratidão por ter encontrado, em meio a tantas prateleiras, aquelas palavras que chegaram no momento certo. E é por isso que defendo que a gente pare com esse preconceito vazio e comece a avaliar cada obra pelo que ela realmente tem a oferecer, não pelo rótulo que colocaram nela.
Por enquanto, é isso que tenho para contar. A aula continua dentro de mim.
E sigo aprendendo,
Andréa ❤


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