Gostaria de possuir o dom mais agudo da escrita, mas ofereço o que a vida tem me ensinado nesses anos todos. E começo com uma pergunta que, à primeira vista, parece até boba de tão óbvia: como pode alguém querer amar o outro de verdade, daquele amor que segura a mão no escuro, que empresta o ouvido sem pressa, que perdoa sem exigir explicações, se essa mesma pessoa não consegue se olhar no espelho sem desviar o olhar?
Parece óbvio, não é? Mas óbvio, nesse mundo, é justamente o que a gente menos enxerga.
É aí que a porca torce o rabo, e me desculpa o linguajar, mas é que não tem jeito de falar disso com frescura. O amar a si mesmo se perdeu em algum lugar do caminho, ou pior: nunca foi achado. Porque, convenhamos, quem é que ensina uma criança a gostar de si mesma? Quem é que para no meio da correria e diz: “olha, filho, você vai errar, vai cair, vai fazer feio, e tudo bem, porque você ainda é digno de amor”? Ninguém. A escola não ensina, a família muitas vezes também não, a igreja às vezes até atrapalha com essa história de que amar a si mesmo é egoísmo. E pronto: a gente cresce achando que amor é uma moeda que se ganha dos outros, nunca uma fonte que brota de dentro.
Triste, não? Mais que triste, é uma tragédia silenciosa.
Muitas pessoas não sabem o que é amar a si mesmo. E não é culpa delas. Isso simplesmente não faz parte da educação emocional do ser humano. A gente aprende a ler, a escrever, a fazer conta, a decorar datas de guerra, mas ninguém ensina a lidar com o próprio coração. Ninguém ensina a sentar com a própria dor e dizer: “eu te vejo, eu te acolho”. Ninguém ensina a celebrar os próprios acertos sem soberba e a perdoar os próprios erros sem se destruir. Então a gente vira adulto com um monte de diplomas na parede e um vazio imenso no peito.

Que teia é essa, meu Deus, que o ser humano se envolve?
É uma teia feita de fios grossos e pegajosos. Mentiras, especialmente aquelas que a gente conta para si mesmo: “não sou bom o bastante”, “ninguém vai me amar de verdade”, “eu mereço isso que está acontecendo”. Mágoa, que a gente guarda como se fosse um tesouro, mas é só veneno guardado em pote de vidro. Ódio, que às vezes a gente nem chama de ódio, chama de “justiça” ou “razão”. Vingança, que a gente disfarça de “lição que o outro precisa aprender”. Ah, essa teia gigantesca, de longa data, tecida por gerações inteiras. E muitos se comprometem a desfazer os nós, juram que vão ser diferentes, mas acabam repetindo as mesmas ações, os mesmos pensamentos, os mesmos gestos automáticos, e colhendo assim os mesmos frutos amargos.
E o amor, coitado, fica ali esperando uma chance de mostrar a cara. Mas a teia é tão grossa que ele mal consegue respirar, e se encolhe, se encolhe, até virar um pontinho quase invisível.
É, Jesus. Muitos imploram e pensam que isso é orar, mas é só desespero disfarçado de religiosidade. Imploram por uma vida melhor, um amor para a vida toda (sem saber que a pessoa mesma é o amor da vida), dinheiro, sucesso, a resolução mágica de todos os problemas. E eu não tô dizendo que dinheiro é ruim, pelo amor de Deus, não é isso. Dinheiro é energia, é ferramenta, é possibilidade. Mas o dimdim, como a gente chama com carinho, é consequência. É o reflexo de uma vida que encontrou alguma harmonia. E essa harmonia se revela a partir da convergência entre o que se pensa, o que se fala e o que se faz. Quando essas três coisas estão brigando, o dinheiro foge. Quando estão alinhadas, ele aparece, quase sem esforço. O mesmo vale para o amor, para a saúde, para a paz. Tudo é consequência, não causa.
E essas pessoas, coitadas, querem falar de amor como quem fala de um produto. Como se pudesse comprar na padaria da esquina, ou quem sabe no mercado, na prateleira de promoção. “Moço, me vê um quilo de amor, bem fresquinho, e põe no cartão.” Não é assim, e a gente sabe. Mas a gente finge que não sabe, porque é mais cômodo pedir do que construir.
Elas precisam entender, de uma vez por todas, que amar a si mesmo não é reclamar das situações como se o mundo devesse algo a você. Não é julgar o outro para se sentir superior, não é ser violento com palavras ou com gestos, mesmo quando acha que tem razão. Como querer amar o outro se você não consegue enxergar que o outro é extensão de você mesmo? Que o que te irrita nele é, quase sempre, o que te incomoda em você? Que o que você admira nele é o que você ainda não se permitiu ser?
Ah, e os pensamentos! Esses são instáveis, turbulentos, cheios de “e se”. E se der errado? E se ele não gostar de mim? E se eu fracassar? E se, e se, e se… Uma torrente sem fim. E esses pensamentos atuam no campo energético, deixando-o desequilibrado, bagunçado, como uma casa que nunca é arrumada. Que amor por si mesmo é esse que não consegue se aquietar, ficar em silêncio por cinco minutos, respirar fundo e orar com o mais puro sentimento? Não com palavras decoradas, nem com repetição mecânica, mas com a alma inclinada, como quem se curva diante de um mistério.

Seria tão bom se, ao invés de “orar” em tom de lamentação (“ai, Jesus, tira isso de mim”, “ai, Jesus, me dá aquilo”) a pessoa abrisse o coração de verdade e pedisse, sim, mas pedisse as coisas que realmente engrandecem a alma. Pedisse para melhorar os pensamentos, para ser mais bondosa, mais paciente, mais generosa. Pedisse para despertar a amorosidade, para compreender e respeitar o outro, para cultivar os bons pensamentos como quem cultiva um jardim. Pedisse para perdoar, para deixar ir, para confiar. Ah, como seria bom se a oração fosse menos uma lista de compras e mais uma conversa íntima com o que há de mais sagrado dentro e fora da gente.
Olha, Jesus, não desiste não, viu?
Eu sei que você não desiste, porque você é amor, e amor não desiste. Mas eu digo isso como quem diz para um amigo cansado: “segura junto”. Seus amigos, os outros mestres, também estão ajudando. Você, Krishna, com sua flauta que encanta os corações distraídos. Sai Baba, com aquele olhar que atravessa máscaras. Ramatís, com sua sabedoria desconcertante. Lao-Tse, com o silêncio que ensina mais que mil palavras. Francisco de Assis, com a leveza de quem abraçou a pobreza e encontrou a riqueza. Buda, com a calma que desafia a tempestade. A Mãe Divina (viva as mulheres também, né?) com sua doçura que não é fraqueza, com sua força que não é violência. E outros, tantos outros, que a gente nem sabe o nome, mas que estão ó, bem juntinhos dessa humanidade tão medíocre, envolvida na pequenez do “eu quero, eu mereço, eu, eu, eu”.
Se todos soubessem o quanto vocês ajudam a quem se ajuda, acho que a situação seria diferente.
Não teria essa coisa de colocar a culpa no outro pelas próprias misérias. “Foi ele que me fez assim”, “foi ela que me deixou amargurado”, “foi a vida que me deveu”. Não, não, não. Cada um é responsável pelo próprio jardim. Cada um colhe o que plantou, mesmo que demore anos para perceber.
Se todos soubessem a importância de agradecer e orar, mas não com repetição de palavras, não com fórmulas prontas, mas com a oração que brota daquele pontinho escondido que ninguém vê, a essência pura de cada um, aquela que existia antes de qualquer nome, qualquer história, qualquer dor. Ah, se soubessem que esse pontinho existe, e que ele é inatingível pela crítica, pela culpa, pelo medo. Se soubessem que ele é a única coisa que realmente importa.
Bom, Jesus, é isso. E assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem muita vontade, já dizia Lulu Santos. Passos lentos, às vezes para trás, mas ainda assim passos.
E eu estou tentando. Falhando às vezes, feio até. Mas já entendi uma coisa que mudou tudo: ninguém é responsável por qualquer coisa ruim que acontece comigo. Nem meu pai, nem minha mãe, nem o ex-namorado, nem o patrão, nem o governo, nem o destino. Sou cocriadora. Não tô dizendo que estou livre das negatividades, tem dias que o chão parece sumir, mas não fico mais enchendo teu saco e dos outros mestres como uma pedinte espiritual, choramingando migalhas. Prefiro suar a minha camisa, errar sozinha, aprender sozinha, e crescer com o que vem.
Agora, é com você! Se você acha que este texto pode auxiliar alguém espiritualmente, compartilhe. Divulgue. Não é por mim, é pelo que ele pode despertar em quem ainda não sabe que o amor-próprio não é egoísmo, é o primeiro degrau de qualquer salvação.
Obrigada. E não desiste não, que a gente também não vai desistir.
Por enquanto, é isso que tenho para contar. A aula continua dentro de mim.
E sigo aprendendo,
Andréa ❤


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