Olhar para fora é fácil. O olhar externo enxerga a superficialidade das coisas, o vazio, o efêmero. É a busca desenfreada por soluções que possam preencher o vazio da alma. Sim, é um vazio que ecoa fundo e se manifesta de muitas formas: angústia, raiva, medo, insegurança, insatisfação, problemas no relacionamento, desânimo e tantas outras formas. Vivemos numa cultura que nos ensina a buscar respostas lá fora, no parceiro ideal, no emprego dos sonhos, na conta bancária gorda, na viagem perfeita, no corpo esculpido. E quando alcançamos essas coisas, o vazio continua lá, intacto, como um convidado indesejado que se recusa a ir embora. Isso acontece porque estamos tentando curar uma ferida interna com remédios externos. É como trocar o papel de parede de uma casa com infiltração: bonito por fora, mas a estrutura continua apodrecendo.
O exterior é o mundo dos sonhos, da alegria passageira, das relações rasas, da falta de propósito. É um território que nos distrai, mas raramente nos transforma de verdade. Ele nos mantém ocupados, entretenidos, hipnotizados pelas vitrines da vida. Mas ocupado não é o mesmo que realizado. Entreter-se não é o mesmo que evoluir. E aí mora o grande engodo da nossa época: acreditamos que quanto mais fizermos, mais teremos, e quanto mais tivermos, mais felizes seremos. No entanto, a história está aí para nos mostrar que não funciona assim. Quantas pessoas bem-sucedidas, ricas, famosas ou admiradas publicamente não se sentem vazias por dentro? Quantas delas não enfrentam crises profundas de sentido, depressão ou ansiedade? O sucesso externo, sem o trabalho interno, é como uma árvore com raízes podres: pode até dar frutos por um tempo, mas uma hora cai.
Essa é a realidade de milhões de pessoas, mas é um cenário possível de mudar. Você pode começar aos poucos, pois cada um tem uma realidade diferente. Não existe um manual único, uma receita de bolo que sirva para todos. Cada jornada é pessoal, intransferível e acontece no ritmo de cada um. No entanto, quando você começa a olhar para dentro, sente as coisas mudarem, primeiro de forma sutil, depois cada vez mais profunda. Os primeiros passos podem ser desconfortáveis pois você pode se deparar com verdades que preferia não ver, com mágoas antigas que achava que já tinham cicatrizado, com padrões de comportamento que se repetem há anos. É como abrir um armário que estava trancado há décadas: a poeira pode fazer espirrar, mas a limpeza que vem depois é revigorante.
É importante frisar que não existe técnica baseada na preguiça e ninguém vai poder fazer algo por você caso você não queira. Nós somos responsáveis por nossa evolução, por nosso crescimento pessoal. Não importa se você segue uma religião, filosofia, se é ateu, espiritualista, pois se você não quiser melhorar, nada vai fazer efeito. O terapeuta pode apontar o caminho, o livro pode trazer insights, o palestrante pode inspirar, mas quem precisa dar o passo é você. Não adianta ter o melhor terapeuta do mundo se você não se abre para o processo. Não adianta ler cem livros de autoconhecimento se você não aplica nada na prática. O conhecimento sem ação é apenas entretenimento intelectual. E, convenhamos, muita gente usa o autoconhecimento como uma nova forma de se distrair, lendo sobre o assunto mas jamais encarando o espelho.

Como ter um autodesenvolvimento sadio?
Você pode buscar psicoterapia, pode ler e estudar sobre o assunto aplicando a sua vida, assistir palestras, fazer cursos, participar de grupos de estudo, meditar, escrever um diário, praticar exercícios físicos com consciência corporal. As ferramentas são muitas e variadas. Mas é importante reconhecer que precisa melhorar, que uma mudança precisa ser feita. Esse reconhecimento, por si só, já é um ato de coragem. Muitas pessoas vivem a vida inteira no piloto automático, repetindo os mesmos erros, as mesmas queixas, os mesmos dramas, sem nunca se perguntarem: “Será que eu tenho alguma responsabilidade nisso?”. O caminho do crescimento pessoal exige abrir mão de certas emoções confortáveis, mas ilusórias como a vitimização ou a autossabotagem. A vitimização é confortável porque nos isenta da culpa. Sempre é o outro, sempre é o mundo, sempre é o sistema. A autossabotagem é confortável porque nos mantém na zona conhecida, mesmo que dolorosa. O conhecido, por pior que seja, nos dá uma falsa sensação de controle.
Em determinado ponto, a carga pode ficar pesada, e algumas pessoas não suportam a dor. Por isso é importante ter suporte: um bom terapeuta, um amigo de confiança, uma comunidade que acolha. Não se trata de sofrer sozinho, mas de não fugir do sofrimento que precisa ser elaborado. Porém, com o tempo, essa dor se torna menor. Em vez de empurrá-la para debaixo do tapete, nós a ressignificamos e passamos a entender o que a causou. Assim, conseguimos falar e pensar sobre o assunto sem sofrimento. A dor não some completamente, mas se transforma. Vira aprendizado, vira sabedoria, vira compaixão pelos outros que também sofrem. É o que chamamos de amadurecimento psicológico.
Luz e sombra: o encontro com a totalidade que somos
Uma das formas mais poderosas de olhar para dentro é entendermos que somos feitos de luz e sombra. Com o lado luz todos queremos ter contato, ele é agradável, aceito, exibido. É a parte de nós que mostramos nas redes sociais, que exibimos em entrevistas de emprego, que apresentamos nos primeiros encontros. Já com o lado sombrio, não. Não queremos entrar em contato com os comportamentos que julgamos inaceitáveis, nem trazer à tona os sentimentos e impulsos que reprimimos. A sombra é formada por tudo o que resistimos, rejeitamos e odiamos em nós mesmos. Ciúmes, inveja, raiva descontrolada, egoísmo, preguiça, covardia, desejo de poder, impulsos sexuais que consideramos inadequados, e também qualidades como força, liderança, criatividade ou sensibilidade que nos foram negadas na infância e que enterramos para não sofrer.
Mas surge uma pergunta essencial: se não encaramos nossa sombra, como saber que aquilo que nos perturba faz parte dela?
A resposta é simples, mas desconfortável: enxergamos nossa sombra de forma indireta, nos traços e comportamentos desagradáveis das outras pessoas. Conseguimos vê-la bem ali porque está “fora”, distante de nós, e parece seguro observar. É por isso que sentimos tanta raiva de alguém que age com arrogância, sendo que nós mesmos temos traços de arrogância que nunca admitimos. É por isso que nos incomodamos tanto com pessoas que consideramos falsas, sem perceber que também usamos máscaras sociais o tempo todo. Outra forma de nos depararmos com o nosso lado sombrio é quando temos uma reação intensa a um aspecto qualquer (sensualidade, preguiça, generosidade, medo, raiva, etc.) em alguém e isso nos causa forte aversão ou mesmo admiração.
Como assim admiração? Nossa sombra não é só coisas ruins?
Não! A sombra é formada por todos os aspectos que rejeitamos, incluindo qualidades positivas que não nos permitimos desenvolver. O que acontece é que projetamos esses aspectos em outras pessoas para nos livrarmos deles, como se disséssemos: “isso não é meu, é dele”. Se você sente uma admiração exagerada por alguém muito ousado, talvez esteja projetando sua própria ousadia reprimida. Se sente admiração por alguém muito generoso, talvez sua generosidade esteja adormecida dentro de você, esperando permissão para vir à tona. O herói que adoramos, o artista que veneramos, o líder que seguimos cegamente, todos eles carregam pedaços de nós que abandonamos no caminho.
A analista Junguiana Marie-Louise von Franz sugere que essa projeção é como disparar uma flecha mágica. Se o destinatário tem um “ponto fraco” onde receber a projeção, então ela se mantém, se projetarmos nossa raiva sobre um companheiro insatisfeito, ou nosso poder de sedução sobre um atraente estranho, ou nossos atributos espirituais sobre um guru, então atingimos o alvo e a projeção se mantém. Daí em diante, emissor e receptor estarão unidos numa misteriosa aliança, como apaixonar-se ou encontrar o herói (ou vilão) perfeito. O apaixonamento nada mais é do que uma projeção maciça da nossa sombra luminosa, todas as qualidades que não vivemos, atribuímos ao outro, e por isso ele nos parece perfeito. Até o dia em que a projeção cai, e vemos o outro como ele realmente é. E aí, ou o relacionamento se aprofunda, ou ele se desfaz com frustração.
A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades não desenvolvidas e não expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente recusa-se a admitir e, portanto, negligencia, esquece, enterra… até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros. Connie Z. & Jeremiah A.

Um exercício prático para começar hoje
Escolha uma pessoa que te irrite profundamente ou que te cause admiração exagerada. Pergunte a si mesmo: “O que vejo nela que não quero ver em mim? Que qualidade ou defeito ela tem que eu também poderia ter, mas me recuso a reconhecer?”. Anote as respostas sem julgamento. Esse pequeno gesto já é um passo corajoso em direção à sua sombra. Não precisa compartilhar com ninguém, a menos que queira. Isso é um trabalho íntimo, um diálogo silencioso entre você e sua própria psique. O importante é não fugir, não justificar, não racionalizar. Apenas observe, respire e acolha o que aparecer. Com o tempo, você vai começar a perceber que os outros são espelhos perfeitos para o que ainda não foi integrado em você.
Bem, o caminho é longo, mas a dica por hora é: nossas sombras estão aí para nos ensinar. Para aprendermos com elas, precisamos fazer as pazes com esses conteúdos e, aos poucos, transformar a lagarta em borboleta. A lagarta não vira borboleta num estalar de dedos, ela passa pelo casulo, pelo escuro, pela dissolução de suas próprias estruturas. É um processo lento, silencioso e muitas vezes solitário. Mas o resultado é uma nova forma de ser, com asas para voar onde antes só se arrastava. Esse é o verdadeiro despertar: olhar para dentro, integrar o que foi negado e descobrir que a totalidade que buscamos lá fora sempre esteve, desde o princípio, dentro de nós.
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Por enquanto, é isso que tenho para contar. A aula continua dentro de mim.
E sigo aprendendo,
Andréa ❤


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