O QUE APRENDI COM GABOR MATÉ SOBRE TRAUMA

Uma conversa sobre feridas, desconexão e a sabedoria escondida no sofrimento

Este artigo foi construído a partir dos ensinamentos do curso ‘A Sabedoria do Trauma’, ministrado por Gabor Maté — tudo o que você ler aqui saiu daquelas aulas.

Trauma não era novidade para mim quando cheguei no curso. Mas quando Gabor Maté falou em ‘a sabedoria do trauma’, minha atenção disparou. Eu precisava entender o que aquilo significava.

Gabor Maté, médico e especialista em trauma, me surpreendeu logo nos primeiros minutos. Ele diz algo que ecoou fundo: “Não há nada de sensato no trauma. É apenas doloroso. Não desejo traumas a ninguém.” E completa: “Não é uma espécie de ponto de vista espiritual que diz ‘isto é feito desta forma para que se possa aprender coisas’. Existem outras formas de aprender. Não precisas de passar pelo trauma para aprender.”

Porque, convenhamos, já estamos cansados da romantização do sofrimento, não estamos? O que Maté propõe é algo bem diferente. Ele não está dizendo que o trauma é bom. Ele está dizendo que, dentro do trauma, existe uma inteligência do organismo que tentou nos proteger. E é isso que ele chama de sabedoria.

A ferida que não cicatrizou (e o tecido que endureceu)

Maté usa uma imagem que me acompanha até agora: a do trauma como uma ferida aberta.

Quando uma ferida está em carne viva, qualquer toque dói desproporcionalmente. Alguém não te entende no presente e você sente uma dor antiga sendo cutucada. Não é sobre o que aconteceu agora. É sobre o que aconteceu então, quando você era pequeno, vulnerável e precisava desesperadamente ser compreendido.

Ele conta uma história pessoal. Chegou de uma viagem, recebeu uma mensagem da mulher dizendo que ainda estava em casa e perguntando se ele queria que ela fosse buscá-lo. Ele ficou furioso. Mal olhou para ela naquela noite. Passou dois dias de mau humor.

O que aconteceu? Aos 8 anos, durante a Segunda Guerra Mundial na Hungria, sua mãe o entregou a uma estranha para salvar sua vida. Ele não a viu por seis semanas. Viveu aquilo como abandono e traição. E ali, 71 anos depois, ao receber aquela mensagem da esposa, a mesma ferida foi tocada.

“Não estou no momento presente”, ele admite. “Estou no passado.”

Mas o trauma também cria o oposto: tecido cicatricial. Áreas onde ficamos duros, insensíveis, inflexíveis. Onde não sentimos mais nada. É a proteção que virou prisão.

O mais bonito? Maté insiste que a cicatriz psíquica pode ser regenerada. Podemos voltar a sentir, nem demais, nem de menos. Podemos recuperar a flexibilidade. “Tudo isto é curável,” ele diz. “E essa é a sabedoria do trauma.”

A desconexão original

O ponto central, para mim, é este: o maior trauma não é o que te aconteceu. É a desconexão de si mesmo que veio depois.

Maté cita Almaas: “A maior calamidade não é que isto ou aquilo te aconteceu. A maior calamidade é que perdeste a conexão com a tua essência.”

Quando a dor era insuportável e você era pequeno demais, vulnerável demais, o que o seu organismo fez? Desconectou você dos seus sentimentos, da sua consciência, de si mesmo. Foi uma decisão inteligente do corpo. Foi uma estratégia de sobrevivência. “É melhor não sentir,” o organismo decidiu.

O problema é que a estratégia continuou. Mesmo quando você já não precisa mais dela.

E agora? Agora você se pergunta por que não consegue dizer “não” sem culpa. Por que sente vergonha de existir. Por que explode de raiva por motivos bobos. Por que adoece.

A tragédia do apego contra a autenticidade

Aqui entramos em um dos conceitos mais lúcidos que já encontrei. Maté diz que toda criança tem duas necessidades básicas, igualmente essenciais:

  1. Apego — a necessidade de estar perto de alguém que cuide de você. Sem isso, você morre.
  2. Autenticidade — a necessidade de estar em contato consigo mesmo, com seus instintos. Sem isso, você também não sobrevive (imagine um ancestral ignorando o tigre porque está “viajando na maionese”).

O problema? Muitas vezes, as duas entram em conflito.

Se você expressa sua autenticidade (sua raiva, seu “não”, seu cansaço) e isso ameaça o apego (porque os pais não sabem lidar, se sentem ameaçados, te punem ou se afastam), a criança não tem escolha. Ela vai suprimir a autenticidade para manter o apego.

Não é uma decisão consciente. É sobrevivência.

“Aprenderam que para ser amado e aceite tinham de suprimir o verdadeiro eu,” ele diz. E isso vale para todos nós, em maior ou menor grau.

A pergunta que ele nos faz, como adultos, é: “Ainda preciso de fazer isso?”

A doença como adaptação

Maté não está falando só de sofrimento psicológico. Ele está falando de doenças físicas.

“Quase tudo a que chamamos doença começa como uma adaptação.”

A depressão? Você empurrou seus sentimentos para baixo porque não podia expressá-los. O TDAH? Seu cérebro aprendeu a desligar diante de um estresse insuportável. As doenças autoimunes? Pessoas que reprimem a raiva, que têm um respeito exagerado pelas necessidades dos outros e ignoram as próprias, que se identificam rigidamente com o dever e a responsabilidade em detrimento do eu.

Ele lista as características das pessoas mais propensas a adoecer:

  • Consideração excessiva pelas necessidades emocionais dos outros, ignorando as próprias
  • Identificação rígida com dever, papel e responsabilidade
  • Repressão da raiva
  • A crença de que nunca se deve desapontar ninguém
  • A crença de que se é responsável por como os outros se sentem

“Nunca encontrei uma exceção,” ele diz, sobre pacientes com doenças autoimunes e câncer.

Não estou dizendo que toda doença é causada por trauma. Mas essa recusa em ouvir o próprio corpo, esse silenciamento da autenticidade em nome do apego, isso tem um preço. E o corpo cobra.

O que fazer com tudo isso?

Não é um convite à culpa. Pelo contrário.

Quando Maté fala da culpa, ele conta uma história judaica linda. Moisés, quando criança, foi posto à prova com um diamante e uma brasa. Se pegasse o diamante, seria morto por ambição. O anjo Gabriel desviou sua mão para a brasa, ele a colocou na boca e ficou com problemas de fala. A brasa doeu, mas salvou sua vida.

“Isso é culpa,” Maté diz. “A culpa apareceu para salvar a sua vida. Quando você era criança e queria ser autêntico, a culpa te manteve em linha. Ela foi sua amiga.”

Mas agora? “Seus serviços já não são necessários.”

Ele sugere: quando sentir culpa ao dizer “não”, celebre. Está fazendo algo por si mesmo. Não vai se tornar um sociopata, você tem consciência, tem remorso saudável. Só está deixando de ser refém de um mecanismo que um dia foi útil e hoje só te aprisiona.

Cura é reconexão

O que mais me marcou em tudo que li e ouvi do Maté é a ideia de que o trauma é reversível. Não porque a gente apaga o passado, não dá. Mas porque o trauma, em sua essência, não é o que te aconteceu. É a desconexão de si mesmo que veio depois. E a desconexão pode ser desfeita. Não é fácil. Não é rápido. Mas é possível.

“Cura,” ele lembra, “está ligado à palavra totalidade.” Curar é tornar-se pleno novamente. É reconstruir a ponte consigo mesmo. É aprender a dizer “não” mesmo com a culpa aparecendo, e deixar ela ficar ali, sem te controlar.

É permitir o luto, como John Lennon gritando “Mãe, não vá!” no final de uma canção. É dar espaço para a raiva saudável, que protege seus limites e depois vai embora. É ouvir o corpo quando ele diz não, antes que ele encontre uma doença para gritar por você.

Uma última coisa

Maté fala sobre desvio espiritual, usar práticas espirituais para contornar a dor emocional, em vez de atravessá-la. Grandes mestres que tiveram experiências elevadas mas continuaram sendo “crianças emocionais”, explorando os outros.

“Se quiseres saber se tens praticado desvio espiritual,” ele diz, “olha para ti da próxima vez que estiveres chateado. Se conseguires ficar presente e manter a tua experiência, é trabalho espiritual genuíno. Se não conseguires, tens estado a fazer um desvio.”

Não adianta sentir a unidade cósmica na almofada de meditação e desmoronar porque alguém te olhou torto no ponto de ônibus.

A cura verdadeira acontece na encarnação. No corpo. Na relação. No “não” dito com tremor na voz, mas dito.

A sabedoria do trauma, para mim, não é sobre agradecer pela dor. É sobre reconhecer que, dentro de cada defesa que construímos, havia um instinto de sobrevivência. Era o amor do organismo por si mesmo, tentando se preservar.

E esse mesmo amor, agora que estamos maiores, mais fortes, mais capazes, pode nos guiar de volta para casa.

Por enquanto, é isso que tenho para contar. A aula continua dentro de mim.
E sigo aprendendo,

Andréa ❤

Se você chegou até aqui, é provável que algo neste texto tenha ressoado internamente: uma inquietação, uma pergunta, uma vontade de ir além. E isso, por si só, já é o movimento mais importante: o primeiro passo em direção ao cuidado consigo mesmo.

Há momentos na vida em que a bagagem se torna pesada demais para carregarmos sozinhos. Momentos em que velhas dores insistem em ditar o presente, ou em que o corpo e a mente parecem falar línguas diferentes. Nesses momentos, contar com um acompanhamento profissional não é sinal de fraqueza, é um ato profundo de coragem e de amor-próprio.

Trabalho com abordagens que respeitam o seu tempo, integram corpo e mente, e devolvem a você o protagonismo da própria jornada. Cada processo é único, desenhado a partir da sua realidade, porque não existem receitas prontas quando se trata de gente.

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